
A incidência real da Febre do Oropouche na América Latina e no Caribe é substancialmente maior do que os casos notificados, com estimativas indicando até 200 infecções reais para cada episódio conhecido. Entre 1960 e 2025, a doença já infectou 9,4 milhões de pessoas na região, sendo que 5,5 milhões desses casos ocorreram no Brasil. A febre é transmitida pela picada de mosquitos do gênero Culicoides, conhecidos popularmente como maruins.
Descobertas e Ciclos da Doença
Os dados foram compilados por um consórcio internacional de pesquisadores, incluindo instituições como a University of Kentucky e a Universidade de São Paulo. O estudo destaca a observação de ciclos urbanos da doença, um fenômeno que se tornou mais comum recentemente, além do já conhecido ciclo silvestre. Essa expansão para áreas urbanas, como Manaus, é um fator preocupante.
“Não sabemos ainda qual a quantidade de casos graves dessa doença nem condições de saber agora, pois temos um número muito baixo de casos registrados”, explicou Vanderson Sampaio, diretor de Operações do Instituto Todos pela Saúde. A falta de dados sobre a gravidade real da doença é uma consequência direta da subnotificação.
Metodologia e Alcance dos Surtos
Para investigar a extensão da infecção, foram analisados dados sorológicos de amostras de sangue coletadas em diferentes momentos. Os resultados indicaram que o surto de 2023-2024 em Manaus teve um alcance semelhante ao de 1980-1981, afetando cerca de 12,5% da população da capital e aproximando-se de 15% no estado do Amazonas.
O estudo revisou 32 surtos da Febre do Oropouche identificados desde 1955, sendo 19 deles no Brasil. Manaus, com sua população e conectividade, atua como um polo crucial na disseminação do vírus para outros estados, como Espírito Santo e Rio de Janeiro, que registraram impactos significativos em 2024.
Subnotificação e Características da Doença
A discrepância entre casos confirmados e o número real de infecções é atribuída ao acesso limitado a serviços de saúde na bacia amazônica e a uma provável alta proporção de casos assintomáticos ou leves. Essa característica, antes sem evidências claras, pode explicar a grande maioria das infecções.
A infecção pelo Oropouche pode mimetizar sintomas de outras arboviroses, como a dengue, dificultando o diagnóstico. Casos graves, quando diagnosticados, podem evoluir para complicações neurológicas, problemas materno-fetais e até óbito.
Tratamento e Controle Vetorial
Atualmente, não existem vacinas ou antivirais específicos para a Febre do Oropouche. Pesquisas recentes, no entanto, investigam a eficácia de moléculas como as acridonas. Curiosamente, anticorpos adquiridos décadas atrás ainda demonstram capacidade de neutralizar cepas recentes do vírus, sugerindo imunidade duradoura.
Um segundo estudo associado revela que a predominância do vírus ocorre em áreas rurais e florestais, com transmissão urbana por mosquitos como o Aedes aegypti sendo minoritária. Isso indica que estratégias de controle focadas apenas em mosquitos urbanos são insuficientes, demandando vigilância epidemiológica em áreas de mata degradada.
“Ao identificar quem já foi infectado, conseguimos prever com maior precisão quais populações permanecem em risco para futuros surtos”, afirma o professor Allyson Guimarães Costa, da Universidade Federal do Amazonas e do Hemoam.
Com informações da Agência Brasil





