
Crianças indígenas e de alguns estados do Nordeste, com até 9 anos de idade, apresentam uma média de altura inferior à de outras regiões do Brasil e abaixo da referência estabelecida pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A conclusão é de uma pesquisa que contou com a participação de especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde da Fundação Oswaldo Cruz da Bahia (Cidacs/Fiocruz Bahia).
Entre os fatores que prejudicam o desenvolvimento estão problemas na atenção à saúde, alimentação inadequada, elevado número de doenças, baixo nível socioeconômico e condições ambientais desfavoráveis. Essas dificuldades também contribuem para que cerca de 30% das crianças brasileiras estejam com sobrepeso ou próximas a ele, demonstrando que a vulnerabilidade social não protege contra o excesso de peso, mas expõe a riscos para um crescimento saudável.
O padrão de peso e altura da OMS para crianças de até 9 anos utiliza curvas de crescimento (escore-z) para avaliar o desenvolvimento saudável. Para meninos de 9 anos, o peso médio varia entre 23,2kg e 33,8kg, com altura entre 124cm e 136cm. Já as meninas pesam em torno de 23kg a 33kg e medem entre 123cm e 135cm.
Cruzamento de dados revela disparidades
A pesquisa analisou dados de 6 milhões de crianças brasileiras, cujas famílias estão registradas no Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), no Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e no Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan), desde o nascimento até os 9 anos de idade. O estudo cruzou informações de saúde e condições socioeconômicas dessas populações.
O líder do estudo, Gustavo Velasquez, ressaltou que as conclusões não implicam que todas as crianças indígenas e das regiões Norte e Nordeste sejam de baixa estatura, mas que a porcentagem que se enquadra nessa classificação é maior. Os dados utilizados são seguros, anonimizados e administrativos, utilizados para pesquisas em saúde.
Sobrepeso e obesidade: um contraste regional
O estudo também investigou a prevalência de crianças com sobrepeso e obesas, utilizando o Índice de Massa Corporal (IMC). De acordo com Velasquez, em termos de peso, não há um problema generalizado de subnutrição no Brasil. Pelo contrário, regiões como Sul, Sudeste e Centro-Oeste apresentam uma prevalência de sobrepeso consideravelmente alta.
Em geral, as crianças brasileiras acompanham ou estão um pouco acima da referência de peso da OMS, mas o pesquisador aponta que isso não indica gravidade imediata, pois há uma margem de tolerância. No entanto, dentro do grupo analisado, algumas crianças já atingem valores de peso considerados anormais.
Velasquez observou que, embora o crescimento linear das crianças brasileiras esteja adequado em média, o peso em algumas regiões tem se mostrado acima do esperado. Ele destacou que a obesidade também está ligada às condições em que a criança nasce, reforçando a importância do acompanhamento pré-natal e pós-natal, além da atenção primária à saúde.
A alimentação, especialmente o consumo de alimentos ultraprocessados, foi apontada como um dos principais determinantes do aumento de peso, tanto em crianças quanto na população em geral. O estudo foi publicado na revista JAMA Network em 22 de janeiro de 2026 e gerou comentários de pesquisadores internacionais, que sugeriram que o mundo aprenda com as lições apresentadas pela situação brasileira.
Em relação ao sobrepeso, os pesquisadores estrangeiros consideraram a situação brasileira menos grave quando comparada a outros países da América Latina, como Chile, Peru e Argentina, onde a obesidade infantil é mais elevada. Mundialmente, o Brasil se encontra em um nível intermediário nesse problema.
Com informações da Agência Brasil





