O Irã vivenciou um dos dias mais violentos desde o início das manifestações populares que eclodiram no país, em meio a um severo apagão da internet que dificultou a comunicação e o fluxo de informações. Organizações de direitos humanos reportam dezenas de mortos e centenas de feridos em todo o território iraniano, onde protestos se espalharam por 31 províncias. As manifestações, que começaram motivadas pela crise econômica e a desvalorização da moeda nacional, o rial, ganharam contornos de questionamento direto à legitimidade do governo islâmico.
Repressão Intensificada e Crise Econômica
A Organização Iran Human Rights (IHR), com sede na Noruega, divulgou um balanço alarmante, indicando que ao menos 45 manifestantes foram mortos por forças de segurança, incluindo oito menores de idade. Quarta-feira (7) foi apontada como o dia mais letal desde o início dos protestos, com 13 óbitos confirmados. O diretor da IHR, Mahmood Amiry-Moghaddam, descreveu a repressão como cada vez mais violenta e abrangente, resultando em centenas de feridos e mais de 2.000 prisões. A crise econômica, agravada por anos de sanções internacionais e pela recente recuperação de um conflito com Israel, é o estopim para a insatisfação popular, que se intensificou após o fechamento de um popular mercado em Teerã em dezembro, quando o rial atingiu mínimas históricas.
Protestos Abrangentes e Táticas de Repressão
As manifestações se tornaram um fenômeno nacional, com a agência Human Rights Activists News Agency (Hrana) registrando atos em 348 localidades. Imagens divulgadas nas redes sociais e verificadas por agências internacionais mostram grandes concentrações de pessoas em avenidas importantes de Teerã, além do fechamento de comércios e bazares em cidades como Tabriz e Bandar Abbas. Essa onda de protestos é comparada em magnitude às que ocorreram entre 2022 e 2023, desencadeadas pela morte de Mahsa Amini sob custódia policial. Relatos indicam que as forças de segurança têm utilizado armas de fogo contra os manifestantes e invadido hospitais para deter feridos, o que a Anistia Internacional classificou como uso de “força ilegal”. Um policial iraniano foi morto a facadas durante confrontos em uma cidade a oeste da capital.
Reações Oficiais e Internacionais
O presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, instruiu as forças de segurança a diferenciarem os manifestantes genuinamente preocupados com a economia dos “desordeiros” que visam a segurança nacional, pedindo contenção e evitando violência. Por outro lado, o chefe do Judiciário, Gholamhosein Mohseni Ejei, adotou uma postura mais dura, acusando Estados Unidos e Israel de tentarem desestabilizar o país e prometendo “nenhuma clemência” para quem apoiar o inimigo. Em resposta à escalada da violência, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou “atingir com muita força” o Irã caso as autoridades continuem a reprimir os manifestantes. A Alemanha, através de seu ministro das Relações Exteriores, condenou o “uso excessivo da força”.
Apagão Digital e Mobilização no Exterior
Em meio à repressão, o Irã implementou um “apagão nacional” da internet, com dados indicando uma queda drástica no tráfego, deixando o acesso restrito a partes do governo e do aparato de segurança. Essa medida, semelhante à adotada em protestos anteriores, visa dificultar a disseminação de informações e a organização dos manifestantes. Reza Pahlavi, uma figura proeminente da oposição no exílio, convocou grandes protestos para esta quinta-feira, alertando previamente sobre a possibilidade de um corte no acesso à internet por parte das autoridades.



