
No Rio de Janeiro, catadores de cooperativas e associações enfrentam um desafio estrutural: embalagens plásticas sem valor de mercado que passam pela triagem sem gerar receita, ampliando a carga de trabalho e comprimindo a renda mensal. Um estudo realizado entre julho e dezembro deste ano acompanhou 20 organizações da capital e das regiões Sul, Centro-Sul e Costa Verde para mapear esse impacto.
Impacto econômico para cooperativas e catadores no Rio de Janeiro
Os pesquisadores calculam que quase 16 horas por mês são perdidas na triagem de plásticos sem retorno financeiro, o que corresponde a 9,4% do tempo de trabalho mensal — quase dois dias a mais por mês para cada catador. A jornada média observada é de 7,5 horas diárias, com 22 dias de trabalho por mês.
Em termos de renda, as organizações avaliadas deixam de arrecadar entre R$ 1.179,03 e R$ 3.771,72 por mês apenas com rejeitos plásticos que poderiam ser reciclados. Esse cenário se soma a desafios estruturais que afetam a qualidade de vida das comunidades envolvidas na coleta seletiva.
Perfil dos catadores e condições de trabalho
O estudo aponta um perfil predominante entre as catadoras: a maioria é mulher, com alta representatividade de pessoas pardas, seguidas por pretas e brancas. Esses números revelam a importância social dessas trabalhadoras no sistema de reciclagem, ao mesmo tempo em que evidenciam vulnerabilidades históricas no setor.
Os resultados refletem a atuação de 20 organizações, com a maioria concentrada na capital e nas regiões citadas, que operam em contexto de economia solidária e enfrentam remuneração baseada no peso do material recolhido, muitas vezes sem retorno adequado para rejeitos que ainda teriam potencial de reciclagem.
Quem produz os rejeitos e quais embalagens são as principais responsáveis
Entre o conjunto de resíduos analisados, a categoria rejeito recebeu destaque: 44,83% eram plásticos, seguidos por orgânicos (40%), outros materiais (14,36%) e eletrônicos (0,80%). Ao todo, foram auditadas 533 embalagens plásticas classificadas como rejeito, associadas a 199 grupos empresariais. Seis empresas aparecem com quase 30% de todas as embalagens rejeitadas: Mondelez International, M. Dias Branco, Pepsico, Nestlé, Bimbo e Capricche.
O estudo também aponta que 82% dos rejeitos plásticos estão ligados a embalagens da indústria alimentícia, com participação menor de itens de higiene, uso doméstico e cosméticos. Além disso, 33,40% das embalagens avaliadas não traziam código de reciclagem ou identificação adequada, dificultando o destino correto do material. Entre os rejeitos, os materiais metalizados tipo Bopp representaram 36,59%.
Conjuntamente, a pesquisa identifica que grande parte das embalagens analisadas não especificava o tipo de reciclagem, o que complica o planejamento de logística reversa e a valorização econômica dos materiais.
Desafios, responsabilidade corporativa e caminhos para melhorias
Os pesquisadores reforçam a necessidade de responsabilização da indústria, especialmente do setor alimentício, pela adoção de embalagens mais ecoeficientes e de maior reciclabilidade. Investimentos em design circular, substituição de materiais de baixa reciclabilidade e fortalecimento da logística reversa são apontados como caminhos para reduzir danos ambientais e assegurar renda digna aos catadores.
A presidente do IDC, Tatiana Bastos, destaca que o serviço ambiental prestado pelos catadores deve ser remunerado além do peso do resíduo, e critica a distância entre a legislação ambiental vigente e a prática cotidiana. Além disso, aponta a necessidade de maior fiscalização do poder público sobre o mercado, cobrança às empresas que colocam embalagens em circulação e responsabilidade dos municípios pela coleta seletiva.
Com informações da Agência Brasil





