Venezuelanos em Dilema: Entre a Oposição a Maduro e a Crítica a Trump


A complexa realidade venezuelana se manifesta em um espectro de opiniões que desafia narrativas simplistas. Para muitos venezuelanos, a oposição ao regime de Nicolás Maduro não se traduz em apoio às ações do governo dos Estados Unidos, especialmente sob a administração de Donald Trump. Essa posição intermediária, marcada pela crítica a ambos os lados, gera um sentimento de isolamento e dificuldade de comunicação, conforme relatam indivíduos que preferem manter o anonimato.


Um Limbo Político e Emocional

Migrantes e residentes na Venezuela descrevem um cenário onde a polarização global os força a escolher lados em um conflito que, para eles, não possui respostas fáceis. Gabriel, um migrante venezuelano que se identifica como latino e LGBTQIA+, exemplifica essa dualidade. Ele relata ter sido forçado a deixar seu país com poucos recursos devido às políticas do chavismo, mas ao mesmo tempo, sente repulsa pelas políticas de Trump, que ele considera contrárias a tudo o que representa. “É como se um vilão estivesse salvando você de outro”, descreve, evidenciando a angústia de não poder celebrar a queda de Maduro sem questionar o papel dos EUA.


Essa sensação de estar em um “limbo” é compartilhada por outros. A dificuldade em explicar a própria posição é um fardo constante, especialmente em um contexto internacional que tende a enxergar a situação em preto e branco. A alegria pela possibilidade de justiça contra Maduro se mistura à relutância em agradecer a Trump por isso, expondo um dilema ético e político profundo.

O Peso da História e o Medo da Intervenção

Ana, que vive em Caracas, acordou com bombardeios em janeiro de 2026 e sentiu o impacto direto da intervenção militar americana. Sua formação política de esquerda a torna naturalmente avessa ao intervencionismo dos Estados Unidos na América Latina, citando exemplos históricos como o do ex-presidente chileno Salvador Allende. Para ela, a invocação do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR) pela oposição venezuelana, buscando uma intervenção externa, é um sinal de incapacidade política interna. Apesar de ser uma ferrenha opositora de Maduro, a quem considera brutal e sem carisma, Ana critica a liderança opositora por depender de forças estrangeiras.

A experiência de Ana com o regime chavista remonta aos tempos de Hugo Chávez, quando já desconfiava da autoridade militar e do autoritarismo crescente. A brutalidade e a crise econômica que explodiram sob Maduro solidificaram sua oposição. No entanto, a chegada das forças americanas representou um trauma, reacendendo memórias históricas de intervenções nefastas no continente.

A Complexidade da Narrativa Venezuelana

Laura, outra migrante que deixou a Venezuela, também não encontra motivos para comemorar. Ela expressa pesar pelo intervencionismo, tanto dos EUA quanto de potências como Rússia e China, no seu país. A confusão e um misto de alívio e esperança pela responsabilização de Maduro e sua esposa se misturam à apreensão sobre o futuro. Laura se esforça para ser uma “ponte” entre posições aparentemente intransponíveis, buscando construir uma narrativa mais complexa para a Venezuela, longe da dicotomia simplista. Essa postura lhe rendeu o apelido de “morna”, vindo tanto de setores radicais da esquerda quanto de apoiadores de Trump, que não compreendem sua recusa em aderir a um lado específico.

Tanto Gabriel quanto Laura ressaltam a frustração de ver a situação venezuelana simplificada por prismas ideológicos externos. As denúncias de anos sobre o êxodo migratório, protestos, eleições fraudulentas e a questão dos presos políticos pareciam ter sido ignoradas até os recentes acontecimentos. Eles descrevem um sentimento de abandono, tanto pela comunidade internacional quanto por forças políticas internas e externas, que não priorizaram a vida e o sofrimento do povo venezuelano. A complexidade da luta pela democracia e pela dignidade na Venezuela, onde a busca por serviços básicos como água e luz é uma batalha diária, muitas vezes se perde em debates globais que esquecem a humanidade por trás da crise.