A Venezuela, detentora da maior reserva de petróleo do mundo, vive hoje um amargo contraste entre seu passado glorioso e seu presente de decadência industrial. As vastas jazidas, descobertas no subsolo marinho e exploradas pela estatal PDVSA, que chegaram ao seu auge nas décadas de 1970 e 1980, transformaram-se em um símbolo de sucata e abandono. A incapacidade da companhia em se modernizar e a dependência de investimentos constantes em manutenção foram cruciais para o declínio, agravado por um coquetel de fatores como corrupção endêmica, má administração, sanções internacionais e a queda global nos preços do petróleo.
O Apogeu e a Desigualdade da ‘Venezuela Saudita’
Nos anos 70, a Venezuela era frequentemente comparada à Arábia Saudita devido à sua imensa riqueza petrolífera. O país, antes focado na agricultura, experimentou uma transformação radical. A produção diária de petróleo atingiu a marca de 3 milhões de barris, gerando um boom econômico que, contudo, foi marcado por uma profunda desigualdade social. Enquanto uma elite desfrutava de um estilo de vida luxuoso, comparável ao da Europa, a maioria da população vivia em condições de pobreza, com favelas se espalhando pelas cidades. Essa disparidade social serviu de terreno fértil para movimentos políticos que prometiam mudança.
A Revolução Bolivariana e a Era Chávez
O descontentamento popular culminou na ascensão de Hugo Chávez, eleito presidente em 1998 após uma tentativa de golpe em 1992. Chávez implementou a chamada Revolução Bolivariana, utilizando os vultosos recursos do petróleo para financiar programas sociais. Milhões de famílias tiveram acesso à moradia e oportunidades de educação, com o governo alegando uma redução drástica da pobreza. Durante esse período, Nicolás Maduro, então ministro das Relações Exteriores, consolidou sua influência, articulando alianças estratégicas com Cuba, Rússia e Irã. A escolha de Maduro como sucessor por Chávez, devido a problemas de saúde, selou o destino político do país após a morte do líder.
A Ascensão de Maduro e a Consolidação do Poder Autoritário
Nicolás Maduro, que iniciou sua carreira política como motorista de ônibus e estudou em Cuba, assumiu a presidência em 2013. Nos primeiros anos, enfrentou resistência interna e buscou consolidar seu poder. A nomeação de figuras-chave, como o general Manuel Figuera para a inteligência, acabou por fortalecer um aparato repressivo. Antigos aliados, como Rafael Ramírez, que ocupou o cargo de ministro do Petróleo, relatam perseguições e o exílio forçado. A intensificação do controle estatal ocorreu a partir de 2015, com Maduro buscando manter-se no poder mesmo após a perda da maioria parlamentar. A promotora-geral Luisa Ortega denunciou execuções e abusos cometidos pelas forças de segurança, expondo a face mais sombria do regime.
Crise Econômica, Pressão Internacional e Sobrevivência Política
O abandono da infraestrutura petrolífera e a instabilidade política mergulharam a Venezuela em uma profunda crise econômica. Sanções impostas pelos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, que chegou a apoiar Juan Guaidó como presidente interino, intensificaram a pressão sobre o governo Maduro. No entanto, o cenário geopolítico, especialmente a guerra na Ucrânia e as sanções ao petróleo russo, levou a uma reaproximação do Ocidente com a Venezuela. A suspensão de algumas restrições americanas ao petróleo venezuelano devolveu a Maduro uma relevância internacional inesperada. Em meio a ameaças e articulações políticas, Maduro tem se mantido no poder, utilizando inclusive uma forte campanha de propaganda, com a criação de personagens como o super-herói animado “Super Bigode”, para reforçar sua imagem.
O Futuro Incerto da Venezuela
A trajetória da Venezuela, de um país próspero a um cenário de sucata e decadência, levanta questionamentos sobre o futuro. A população, marcada por anos de dificuldades econômicas e instabilidade política, agora observa a dinâmica de poder em um cenário internacional em constante mudança. A esperança de recuperação econômica e estabilidade social permanece como um anseio distante para a maioria, enquanto o legado da exploração petrolífera se transforma em um lembrete de oportunidades perdidas e um futuro incerto.



