
Diante das barreiras encontradas para inserir suas músicas no mercado, um grupo de jovens produtores e músicos fundou o selo independente AlterEgo, no Rio de Janeiro. A iniciativa, que começou com uma produtora de áudio criada por Victor Basto e João Mendonça, amigos de faculdade e integrantes da banda Quedalivre, visa não apenas impulsionar o trabalho autoral, mas também dar espaço a outras bandas com trajetórias semelhantes.
Victor Basto, diretor executivo do selo, explica que a ideia surgiu da própria experiência da banda Quedalivre, que enfrentou a falta de retorno e o descaso de selos tradicionais. “Com a banda, fomos descobrindo as deficiências que as outras bandas também tinham e acabou que a gente juntou o nosso conhecimento técnico com a questão de produção executiva para bandas mesmo. Juntando também com técnicos de outras áreas, surgiu o coletivo”, relatou Basto à Agência Brasil.
O que é um selo musical?
Um selo musical ou fonográfico é uma marca responsável por gerenciar, produzir, promover e distribuir a obra de artistas. Apesar da decepção inicial com a falta de interesse de selos estabelecidos, Basto vê a criação da AlterEgo como um ponto positivo: “Mas acabou que foi a melhor coisa que aconteceu, porque a gente teve que criar o nosso próprio selo e acabou sendo perfeito, porque tem todo mundo que a gente já conhece, com quem a gente já trabalha junto, bandas que não teriam espaço se não fosse a gente chegando com o novo selo”.
Nascimento e crescimento do AlterEgo
Embora o selo exista efetivamente desde outubro de 2025, o lançamento oficial ocorreu em fevereiro, durante um festival homônimo no Rio de Janeiro. O evento também serviu como pré-lançamento do álbum “Seres Urbanos”, da banda Quedalivre. Atualmente, a AlterEgo conta com uma equipe técnica de 22 jovens, com idades entre 21 e 25 anos, englobando diversas áreas como produção musical, eventos, design, fotografia e audiovisual. O selo já reúne mais de 25 bandas de diferentes estados.
O cenário da música independente
A AlterEgo se insere em um contexto de crescimento dos selos independentes no mercado global. Uma pesquisa internacional da MIDiA Research indicou que, em 2023, as entidades independentes representaram 46,7% da participação no mercado mundial de música, movimentando US$ 14,3 bilhões. No Brasil, a União Brasileira de Compositores aponta que a produção independente enfrenta desafios como problemas com o streaming, a dificuldade de divulgação em um cenário de artistas em ascensão exponencial e a concentração de receitas no setor.
A pesquisa global também destaca que, apesar de o streaming ser a principal fonte de receita para gravadoras independentes, com o Spotify liderando, 87% delas acreditam que está cada vez mais difícil fazer artistas se destacarem e 78% enfrentam dificuldades em manter o interesse dos fãs.
Um ecossistema autogerido
Dentro desse cenário, o AlterEgo funciona como um ecossistema cultural autogerido, onde os próprios membros, majoritariamente universitários da área da economia criativa, colaboram ativamente. “Basicamente, quem compõe o selo internamente são várias pessoas da nossa idade, entre 21 a 25 anos mais ou menos. Todo mundo universitário, da área da economia criativa mesmo. Muita gente que já frequenta a cena, já trabalha na cena de rock e de blues, então, tem gente do design, fotógrafos, do audiovisual, técnico de som, muita gente. Até contador tem”, detalha Basto.
O lema “faça você mesmo” norteia o trabalho do selo, incentivando a autonomia na produção de eventos e a quebra de barreiras impostas por modelos mais tradicionais. “Está todo mundo envolvido. Não é sobre as próprias bandas. Tem toda uma estrutura, pessoas que já trabalhavam juntas, que já participavam mas que, agora, estão engajadas realmente em fazer o cenário crescer, para poder todo mundo viver do que a gente ama mesmo. Não é uma coisa individual de forma nenhuma”, ressalta Basto.
Para Basto, o modelo do AlterEgo demonstra que é possível produzir música de qualidade e construir carreiras sem a necessidade de grandes investimentos iniciais. “Eu acho que até para bandas novas que já vieram falar conosco e que começaram por causa da gente, é muito importante que possamos mostrar que dá para fazer, sem ser nascido no berço de ouro da música. Sem aqueles investimentos vultosos dá para fazer coisa boa, sim”.
Com informações da Agência Brasil





