Início Educação Estudo revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres

Estudo revela que 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres

Um estudo conduzido por pesquisadoras da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR) revela um dado alarmante: 90% dos cuidadores informais no Brasil são mulheres. Predominantemente filhas, cônjuges e netas, com uma média de idade de 48 anos, estas mulheres dedicam tempo e energia a tarefas essenciais de cuidado que, em sua maioria, não são remuneradas nem reconhecidas socialmente. O fenômeno, segundo a pesquisa, é global.


A invisibilidade do trabalho de cuidado

A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios de 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), já indicava uma disparidade: mulheres dedicam, em média, 9,6 horas semanais a mais em tarefas domésticas e de cuidado em comparação aos homens. Isso se traduz em mais de mil horas anuais de trabalho não remunerado e socialmente invisível.


Valquiria Elita Renk, professora do Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Políticas Públicas da PUCPR e uma das autoras do estudo, destaca o impacto dessa sobrecarga. “Uma mulher para de estudar para cuidar dos irmãos, dos trabalhos domésticos. Faz isso todos os dias e, quando termina, recomeça no dia seguinte. É um trabalho que não tem fim”, afirma.

O perfil das cuidadoras

A metodologia da pesquisa incluiu 18 entrevistas com mulheres de áreas urbanas e rurais do Paraná e de Santa Catarina. A maioria das participantes são filhas (68%) e esposas (21%) de idosos, doentes ou com deficiência. O perfil etário predominante é de adultas entre 41 e 60 anos (43%), seguidas por idosas com mais de 60 anos (37%) e jovens adultas entre 21 e 30 anos (22%).

Em termos de escolaridade, a maioria possui o ensino fundamental (58%), seguido por curso superior (30%) e ensino médio (11%). Profissionalmente, há diversidade, com 32% sendo agricultoras, 26% atuando no mercado formal, 26% aposentadas, 11% do lar e 5% estudantes. Alarmantemente, 61% pararam de trabalhar para cuidar integralmente de um familiar.

Cansaço, solidão e a falta de reconhecimento

As cuidadoras relatam sentir cansaço extremo, solidão e desamparo. “O cuidado é full time (o tempo todo), às vezes 24 horas por dia”, descrevem. A falta de bonificação e previdência, aliada à colaboração nem sempre presente da família, agrava a situação. “São mulheres sozinhas, cansadas, exaustas, depressivas”, aponta o estudo.

A “ética da responsabilidade” internalizada faz com que o cuidado com o outro seja priorizado em detrimento do autocuidado. “Elas não têm tempo para se cuidar porque o tempo delas é dedicado primeiro para os outros, depois para elas”, explica Renk.

Políticas públicas e a necessidade de mudança cultural

Enquanto países como Finlândia, Dinamarca, França, Áustria, Alemanha, Holanda, Reino Unido, Irlanda e Espanha já implementam políticas de apoio aos cuidadores, com custeio de serviços e compensação financeira, o Brasil ainda engatinha. A Política Nacional do Cuidado, instituída no final de 2024, está em fase de implementação.

A pesquisadora defende não apenas a compensação financeira, mas o reconhecimento social do trabalho de cuidado. Ela sugere que o período dedicado ao cuidado seja considerado para fins de aposentadoria, como já ocorre no Uruguai, onde mulheres podem se aposentar mais cedo com base no número de filhos.

A educação é apontada como fundamental para uma mudança cultural. “É preciso que haja um esforço no sentido de educar meninas e meninos de que o trabalho doméstico tem que ser mais igualmente dividido dentro das casas, nas famílias”, defende Renk. A sobrecarga recai mais severamente sobre a “Geração Sanduíche”, mulheres que conciliam trabalho formal, gestão da casa e cuidado com filhos e idosos.

Em um cenário que pode indicar uma mudança, alguns juízes brasileiros já têm concedido decisões que obrigam ex-maridos a pagarem pelo tempo que as ex-mulheres dedicaram ou dedicarão aos filhos, um “luzinha no fim do túnel”, segundo a pesquisadora.

Com informações da Agência Brasil