
A crise no fornecimento de energia elétrica em Manaus ganhou forte repercussão política após recentes declarações do senador Eduardo Braga (MDB). Enquanto moradores e comerciantes enfrentam prejuízos diários com eletrodomésticos queimados, apagões e fortes oscilações de tensão, o parlamentar saiu publicamente em defesa da Âmbar Energia, nova responsável pela distribuição no Amazonas. A postura chamou atenção da população não apenas pelo tom condescendente com a concessionária, mas também porque o senador declarou à Justiça Eleitoral investimentos de quase R$ 750 mil em papéis de uma empresa que pertence aos mesmos proprietários da distribuidora.
Ações da JBS e a ligação com os donos da Âmbar
Conforme dados oficiais declarados ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Eduardo Braga possui 9.800 ações da JBS N.V., avaliadas em R$ 749.980,77. Tanto a gigante de alimentos JBS quanto a concessionária Âmbar Energia integram a J&F Investimentos, holding controlada pelos empresários Joesley e Wesley Batista.
Os controladores do conglomerado carregam um histórico conhecido na Justiça brasileira. Joesley e Wesley Batista já foram alvos de investigações da Polícia Federal e chegaram a ser presos em ações como a Operação Tendão de Aquiles, em 2017, acusados de uso de informação privilegiada no mercado financeiro, além da Operação Capitu, em 2018, desdobramento que apurou supostos repasses ilegais a agentes políticos. O retrospecto polêmico dos empresários acentua a repercussão negativa em torno do alinhamento do parlamentar com os interesses do grupo no Amazonas.
Tecnicamente, deter ações de mercado aberto da JBS não transforma o senador em administrador ou sócio formal da distribuidora de energia. No entanto, o alinhamento político e a defesa enfática da concessionária geraram desconfiança pública, sobretudo porque o grupo controlador é diretamente beneficiado pela estabilização dos negócios no estado.
Ataque ao empresário Orsine Oliveira e ruptura política
Em entrevista ao programa do portal Radar Amazônico, o senador rebateu as queixas populares e transferiu a responsabilidade pelo colapso elétrico para a gestão anterior, personificando a crise na figura do empresário amazonense Orsine Rufino de Oliveira.
Orsine é dono do Grupo Oliveira Energia e liderou o consórcio que comprou a antiga distribuidora estatal no leilão de privatização em 2018. Ao longo dos anos, a concessionária sob seu comando mergulhou em dívidas bilionárias, inadimplência e perda de capacidade de investimento, o que forçou as negociações regulatórias para a entrada do grupo J&F na operação.
Historicamente próximo de Orsine nos bastidores políticos locais, Braga adotou um tom de rompimento direto e agressivo durante a sabatina:
“O que nós estamos vivendo hoje tem culpa, nome e sobrenome: Orsine Oliveira. Roubou a Amazonas Energia, arrebentou a Amazonas Energia. Agora chegou a Âmbar, mal molhou o bico, e tá todo mundo jogando a culpa na Âmbar e não lembrando o que o Orsine Oliveira fez durante oito anos.”
População contesta paciência e relata prejuízos no bolso
O argumento de que a nova operadora assumiu a rede há poucos meses e precisa de prazo para investir cerca de R$ 14 bilhões não encontrou eco fácil. A jornalista e apresentadora Any Margareth rebateu o senador ao vivo, relatando que teve um prejuízo recente de R$ 5 mil após a queima de uma placa de vídeo em seu estúdio decorrente de quedas bruscas de tensão:
“Aqui a gente passa cinco horas sem energia. Foi tanta falta de luz que o nobreak não aguentou. Se não tinha condições de fazer o investimento imediato, então não comprasse a concessão.”
Ao ser orientado por Braga a recorrer ao Poder Judiciário para reaver os danos materiais, a apresentadora lembrou que a maioria da população de baixa renda não dispõe de tempo ou recursos para sustentar disputas judiciais contra grandes conglomerados.
Ministério Público suspende troca de fiação em Manaus
A intervenção pública de Braga a favor da distribuidora ocorre justamente em um momento de endurecimento da fiscalização. O Ministério Público do Estado do Amazonas (MPAM) recomendou à concessionária a suspensão imediata, pelo prazo de 30 dias, de todos os serviços de substituição de cabeamento nas vias públicas de Manaus.
A medida cautelar foi instaurada após uma onda de reclamações de moradores, registros de curtos-circuitos, quedas anormais de voltagem e princípios de incêndio em postes e transformadores logo após intervenções nas redes locais.
O MPAM estipulou prazo para que a Âmbar apresente laudos periciais e certificados que comprovem a segurança dos novos cabos de alumínio diante do clima de alta temperatura e umidade da capital, além do fornecimento de estatísticas detalhadas sobre queixas de usuários prejudicados.





