A recente intervenção militar liderada pelos Estados Unidos na Venezuela, culminando na captura do presidente Nicolás Maduro, é vista por muitos analistas como um marco divisor na geopolítica global. O episódio, ocorrido em 3 de janeiro, não apenas chocou a comunidade internacional, mas, segundo especialistas, evidenciou uma reconfiguração do poder mundial, onde Estados Unidos, China e, em menor escala, a Rússia, emergem como os principais protagonistas, dispostos a expandir suas áreas de influência e, por vezes, desconsiderando fronteiras e acordos estabelecidos após a Segunda Guerra Mundial.
A Ascensão de um Novo Xeque-mate Global
Desde o fim da Guerra Fria, o mundo testemunhou um período de hegemonia americana e, posteriormente, uma ordem multipolar onde diversos centros de poder, como Europa, Japão e países do BRICS, coexistiam e competiam sob a égide de instituições multilaterais como a ONU e a OMC. No entanto, o evento na Venezuela, para muitos, sinaliza o colapso desse modelo. A ação americana, em particular, é interpretada como uma declaração de que a força militar e a imposição unilateral de interesses podem estar ressurgindo como pilares das relações internacionais, afastando-se de um cenário de paz histórica e cooperação.
EUA, China e Rússia: Os Novos Polos de Poder?
A discussão central entre especialistas gira em torno da configuração exata dessa nova ordem. Enquanto alguns a veem como um retorno a um sistema bipolar, semelhante ao da Guerra Fria, mas agora com a China substituindo a União Soviética ao lado dos EUA, outros defendem que a Rússia, apesar de suas limitações econômicas e tecnológicas em comparação com as duas superpotências, desempenha um papel de “terceira potência” relevante, especialmente em sua esfera de influência regional. A invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022, as ações chinesas no Mar da China Meridional, com a construção de ilhas artificiais com fins militares, e a própria intervenção americana na Venezuela, são exemplos frequentemente citados de potências agindo de forma assertiva em seus “quintais” geopolíticos.
A Rússia, com seu arsenal militar considerável e sua capacidade de negociar de igual para igual com os EUA, além de forçar a União Europeia a aumentar seus gastos com defesa, demonstra uma influência que transcende a mera esfera regional. Contudo, em termos de poder econômico e tecnológico, a distância para EUA e China é significativa. A análise de que a Rússia terá, em última instância, uma influência mais regional, enquanto a China e os EUA consolidam um sistema bipolar, é uma perspectiva que ganha força.
O “Quintal” Chinês e a Doutrina Monroe Revivida
A China, segunda maior economia do mundo, tem expandido sua influência militar e econômica de forma notória. Embora formalmente defenda a não intervenção, suas ações ao redor de Taiwan e a expansão territorial no Mar da China Meridional indicam uma postura mais assertiva. Especialistas como Leonardo Trevisan observam que a China está em um “ciclo de expansão” internacional, focado tanto no comércio quanto na proteção de seus interesses. A construção de ilhas artificiais, por exemplo, é vista como uma estratégia para tornar a região inexpugnável.
Do lado americano, a intervenção na Venezuela foi explicitamente ligada à Doutrina Monroe, uma política com mais de 200 anos que visava consolidar o domínio dos EUA sobre a América Latina. A declaração do Departamento de Estado, “Este é o nosso Hemisfério”, reforça a ideia de que as grandes potências estão se sentindo mais livres para agir em suas áreas de influência, com menos consideração pelas normas internacionais. Essa postura, segundo Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais, é um sintoma do desrespeito crescente pelas instituições multilaterais, incluindo a própria ONU.
Disputa Diplomática e o Futuro da Ordem Mundial
A rivalidade entre EUA e China se manifesta não apenas em guerras comerciais, mas também em disputas diplomáticas. Acusações mútuas e pressões para que países cortem laços com rivais são táticas cada vez mais evidentes. Analistas preveem que o campo diplomático será um dos palcos principais dessa nova disputa de poder, com a China buscando mobilizar a opinião pública internacional contra os EUA, enquanto Washington tenta isolar seus adversários. O cenário atual sugere uma transição para um mundo onde as esferas de influência se tornam mais definidas, e onde a capacidade de impor a própria vontade pode prevalecer sobre acordos e leis internacionais.




