
A Beija-Flor de Nilópolis levará para a Sapucaí, no Carnaval de 2026, o enredo “Bembé do Mercado”, uma celebração de rua do Candomblé que acontece desde 1889. A escolha do tema, segundo a agremiação, visa dar visibilidade a “Brasis que o Brasil não conhece”, destacando a importância de enredos autorais que exploram as entranhas da história e cultura afro-brasileira.
A ancestralidade e a luta pela liberdade
O Bembé do Mercado surgiu como uma forma de marcar o primeiro ano da Abolição da Escravatura, mas também para denunciar a incompletude da Lei Áurea. A manifestação reivindica o direito à liberdade de expressão cultural e religiosa, levando o Candomblé para as ruas.
A tradição do Bembé remonta a figuras como o babalorixá João de Obá, que enfrentou perseguições religiosas, passando por Pai Tidu e Mãe Lídia, até chegar a Pai Pote, atual presidente da associação que reúne 65 terreiros e conta com a participação de outros 100 na manifestação de rua.
“Eu, que estou presidente este ano da homenagem, estou muito feliz, porque [a Beija-Flor] é uma comunidade idêntica à nossa, que luta pelos objetivos da população negra, pela cultura, pela preservação da nossa essência cultural e contra a intolerância religiosa”, declarou Pai Pote à Agência Brasil.
Valorização do Candomblé e da cultura afro-brasileira
A iniciativa da Beija-Flor em abordar o Bembé do Mercado transcende a celebração específica da cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia. Segundo Pai Pote, a escola “valoriza todos os candomblés”, abrangendo a manifestação na Bahia, no Brasil e no mundo. O enredo busca homenagear o povo negro, os terreiros e os “macumbeiros”, termo que, segundo ele, “é importante ser macumbeiro, sim”.
O desfile promete trazer à avenida a rica cultura que envolve o Bembé, incluindo a culinária afro, manifestações de cultura popular, o trabalho de marisqueiras e farinheiras, capoeiristas, o Negro Fugido e feirantes.
Autorização espiritual e comunidade engajada
A escolha do enredo para o Carnaval de 2026 passou por um processo de autorização espiritual, através de um jogo de búzios realizado por Pai Pote, sob a égide de Ogum. “É muito bom, mas, ao mesmo tempo que traz uma sensação de alívio, de estar no caminho certo, é sinal de que o trabalho está só começando”, comentou o carnavalesco João Vitor Araújo.
João Vitor ressaltou a importância de “pedir licença a Pai Pote e às lideranças das manifestações culturais para carnavalizar cada fantasia, cada significado, sem ofensa e sem desrespeito, porque isso para eles é sagrado”.
A comunidade da Beija-Flor também demonstrou grande aceitação ao enredo, considerada fundamental para o sucesso do desfile. “A sinopse é muito bonita, mas, no dia do desfile, a sinopse são eles. São eles que carregam o enredo dali para frente”, afirmou o carnavalesco.
Novos intérpretes e samba-enredo promissor
Após 50 anos com Neguinho da Beija-Flor, a escola apresentará em 2026 os novos intérpretes Nino Milênio e Jéssica Martin. Nino Milênio, com mais de 20 anos de carreira, vê a função como uma honra e uma grande responsabilidade. “É uma vaga difícil, um lugar que foi ocupado por 50 anos, [Neguinho] não é qualquer um”, disse.
Jéssica Martin, que também estreia na função, descreveu o processo como mágico e incrível. “Suceder o mestre Neguinho está sendo uma honra. Nunca, nos maiores dos meus sonhos, poderia imaginar que isso aconteceria com a minha vida”, afirmou.
Ambos os intérpretes estão confiantes na força do samba-enredo, elogiado por sua qualidade e pela forma como a letra aborda o tema com respeito e admiração pela cultura do Bembé.
Com informações da Agência Brasil





