
O sistema financeiro da América do Sul enfrenta um momento de forte turbulência. Carlos Carvallo, presidente do Banco Central do Paraguai (BCP), apresentou sua renúncia após decretar intervenção no Ueno Bank, uma das maiores instituições financeiras digitais do país. O anúncio desencadeou protestos de clientes em frente a agências fechadas e colocou sob desconfiança a estabilidade econômica paraguaia.
A derrocada da fintech acelerou uma crise política e institucional que atinge em cheio a reputação do país na atração de capitais internacionais.
Déficit de solvência e portas fechadas aos correntistas
A medida drástica de resolução foi adotada depois que órgãos reguladores identificaram um rombo crítico no índice de solvência do Ueno Bank. Com o congelamento das operações, centenas de correntistas e aposentados formaram filas na periferia da capital Assunção e em diversas cidades para tentar reaver suas economias.
O banco digital, controlado pelo Grupo Vázquez, vinha crescendo rapidamente em um modelo semelhante a grandes fintechs regionais, acumulando cerca de 3 milhões de clientes e administrando perto de US$ 850 milhões em recursos públicos. A crise explodiu após denúncias de concessões excessivas de empréstimos sem lastro direcionadas a companhias pertencentes ao próprio grupo controlador.
Conflito de interesses e pressão judicial sobre a cúpula do BC
A renúncia de Carlos Carvallo ocorreu em meio a um forte desgaste institucional. O chefe da autoridade monetária já havia exercido o cargo de presidente do próprio Ueno Bank até agosto de 2023, o que gerou duras críticas sobre a independência da supervisão bancária e possíveis blindagens políticas.
Com a crise instalada, o Ministério Público paraguaio abriu uma investigação criminal para apurar a conduta dos administradores da fintech e os meandros da regulação do órgão regulador. Diante das cobranças públicas, Carvallo declarou que sua saída tem como objetivo acalmar os ânimos e permitir que os auditores trabalhem sem interferências políticas, embora continue no posto de forma temporária até a conclusão formal do processo.
Desvalorização de títulos e garantias aos depositantes
Os reflexos da quebra não ficaram restritos aos correntistas do banco: papéis corporativos da instituição com vencimento em 2031 despencaram, arrastando junto o valor dos títulos soberanos emitidos pelo governo paraguaio no mercado externo.
Tentando frear o pânico generalizado, o Banco Central classificou o evento como um caso isolado e assegurou que o restante do sistema financeiro segue seguro. Pelas regras locais do fundo garantidor, os depositantes lesados contam com a cobertura legal de até 75 salários mínimos (cerca de US$ 39 mil), mantendo também a previsão de repasse integral para os pagamentos vinculados a aposentadorias.





