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Exposição de Caru Brandi no Rio celebra a cultura trans pela primeira vez

O Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), no Catete, Rio de Janeiro, sedia a exposição individual “Fabulações transviadas” do artista gaúcho Caru Brandi. A mostra, que fica em cartaz até 22 de abril, marca a primeira vez que o artista transmasculino não-binário expõe individualmente na cidade, trazendo um olhar inédito sobre a cultura e a produção artística trans para o espaço.


Caru Brandi expressou grande satisfação com a oportunidade, que considera uma “abertura de caminhos” e uma conquista para a comunidade trans. “Espero, inclusive, que isso se torne uma política não só do Centro de Folclore, mas de outras instituições aqui do Rio de Janeiro”, declarou o artista em entrevista à Agência Brasil.


Visibilidade e representatividade na arte

A exposição “Fabulações transviadas” tem como objetivo principal dar visibilidade à cultura trans e à produção de artistas que compartilham essa identidade. Brandi vê sua mostra como um marco importante, não apenas para si, mas para toda a comunidade.

O artista destacou a relevância do Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular abrir espaço para o conhecimento artístico a partir dos saberes trans. “Fiquei muito feliz em poder inaugurar este espaço aqui. É também a primeira vez que um projeto me chama para uma exposição fora de Porto Alegre”, comentou.

Obras e percurso artístico de Caru Brandi

A mostra é composta por obras do acervo pessoal de Caru Brandi, além de peças criadas especialmente para a ocasião. As cerâmicas e pinturas retratam, de forma lúdica e crítica, o processo de transição de gênero. Todas as obras estão disponíveis para venda.

O percurso artístico de Brandi começou com a tatuagem e desenhos mais realistas. A partir de 2018, impulsionado pelo seu processo de transição de gênero e pelo contato com outras pessoas transmasculinas e não-binárias, seu trabalho se tornou mais ficcional. “Saio de uma coisa mais realista que eu fazia antes, para uma coisa bem mais ficcional. Aí começa meu processo artístico, junto com minha transição de gênero”, revelou.

Apesar de ter se formado em Direito em 2021, Caru Brandi decidiu seguir carreira nas artes, cursando atualmente Artes Visuais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. “Volto à academia como forma também de me profissionalizar enquanto artista. Entendi que precisava estudar”, afirmou.

Performance e cultura ballroom na abertura

A inauguração da exposição contou com a participação do público em uma oficina de escultura em cerâmica, “Imaginários do barro”, ministrada pelo artista. Em seguida, ocorreu uma performance com os artistas Maru e Kayodê Andrade, celebrando a potência da cultura ballroom.

A cultura ballroom, originada nos bailes LGBTQIA+ nos anos 70 nos Estados Unidos, é vista como uma forma de resistência. Maru, artista transmasculino não binário, e Kayodê Andrade, transmasculino e fundador do Coletivo TransMaromba, trouxeram intervenções artísticas, desfiles e dança para a abertura.

“Penso na coletividade. Trazer os meninos da ballroom para a exposição foi muito importante, porque foi uma forma de colocar outras pessoas junto comigo neste espaço”, explicou Caru Brandi, ressaltando que suas vivências, embora pessoais, falam de coletividade e abordam a invisibilidade de diversas formas de existência trans.

Pesquisa e curadoria

A pesquisa e o texto do catálogo da exposição são de autoria do antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva. Ele destacou que a mostra abraça dicotomias e desafia padrões estabelecidos sobre o que é humano, natural, homem ou mulher.

Patrick Monteiro ressaltou que a exposição é um marco para a Sala do Artista Popular, especialmente no contexto dos esforços do Iphan para pensar o patrimônio de segmentos da sociedade brasileira, como evidenciado pela criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+.

Rafael Barros, diretor do CNFCP, celebrou a iniciativa, descrevendo o trabalho de Caru Brandi como singular e expressivo, capaz de tensionar os limites da arte e da cultura popular. “Isso tem proporcionado ao espaço cultural entender um outro horizonte e uma outra perspectiva de trabalho que ajuda a pensar: O que é arte popular hoje?”, pontuou.

Barros também enfatizou a importância de compreender “o universo trans, o multiverso trans, os diversos universos que fazem parte das existências não-binárias, das existências queers como universos extremamente populares”.

Com informações da Agência Brasil