
O Carnaval brasileiro, reconhecido mundialmente por sua grandiosidade festiva, está cada vez mais se consolidando como um vibrante campo de produção de conhecimento e formulação de políticas culturais e sociais. Estudos recentes, muitas vezes originados da vivência direta nas comunidades do samba, buscam reposicionar a maior manifestação cultural do país como um investimento contínuo em desenvolvimento e inclusão.
Márcio Tavares, secretário-executivo do Ministério da Cultura (MinC), destaca a importância de valorizar os trabalhadores e as trajetórias por trás do espetáculo. “Nossa missão é valorizar essas trajetórias, tratando o Carnaval não como um gasto sazonal, mas como um investimento em política pública contínua de desenvolvimento e inclusão social”, afirma. Ele ressalta que, para cada pessoa que desfila, centenas de trabalhadores atuam nos bastidores, garantindo o sustento de suas famílias.
Da avenida à pesquisa: a jornada de Rafaela Bastos
Rafaela Bastos, pesquisadora e gestora pública, exemplifica essa transição entre a prática e a teoria. Com uma trajetória que inclui ser passista, musa e atual vice-presidente de Projetos Especiais da Estação Primeira de Mangueira, ela iniciou seus estudos a partir de observações sobre a figura da mulher passista e os preconceitos enfrentados. “O samba no pé sempre esteve muito associado a estereótipos femininos. Ainda assim, essas experiências me potencializaram”, relata.
Sua pesquisa sobre a objetificação sexual da mulher passista na Marquês de Sapucaí rendeu reconhecimento nacional e o prêmio Medalha Rui Barbosa em 2017. “Ali eu entendi que, mesmo dando o melhor de mim, meus desejos profissionais poderiam não se realizar. Não por minha causa, mas por estruturas de machismo e racismo”, explica, reforçando seu compromisso com o Carnaval e as mulheres que o fazem acontecer.
O Carnaval como ecossistema produtivo
A partir de 2016, os estudos de Rafaela Bastos expandiram-se para a economia do Carnaval. Ela passou a analisar o setor sob óticas macro e microeconômicas, economia circular e impacto econômico, definindo o Carnaval como um “ecossistema produtivo complexo”.
“Uma escola do grupo especial vende cultura para outras escolas, para outros estados e até para outros países. Isso é economia criativa em funcionamento”, observa. Um dos principais desafios apontados é a falta de reconhecimento institucional das atividades econômicas ligadas ao Carnaval, que ainda é visto como precarizado e informal. “O Carnaval ainda é precarizado e informalizado enquanto atividade econômica”, lamenta.
Políticas públicas e valor público
A análise de Rafaela sobre o processo de tomada de decisão de investidores carnavalescos e a relação das escolas de samba com mecanismos de fomento, como a Lei Rouanet, entre 2017 e 2021, buscou identificar gargalos e oportunidades para políticas públicas mais eficazes.
O Ministério da Cultura, alinhado a essa visão, tem aprofundado o olhar sobre o Carnaval como eixo estratégico de desenvolvimento. Uma missão internacional de pesquisa de campo sobre Carnaval, economia criativa e valor público, iniciada em fevereiro, percorreu Rio de Janeiro, Brasília e Salvador em cooperação com o Institute for Innovation and Public Purpose. “O Carnaval mostra como cultura não é um custo, mas um investimento que amplia capacidades produtivas, fortalece o bem-estar coletivo e gera valor público ao longo do tempo”, defende o MinC.
O impacto social do Carnaval, segundo o ministério, transcende o econômico, abrangendo “coesão social, o senso de identidade e patrimônio”. Ele gera valor público ao construir coesão social, habilidades, redes e conhecimento, representando um investimento de longo prazo.
Conscientização e direitos humanos
O MinC também atua para aproximar as políticas culturais das agendas de direitos humanos, integrando conselhos como o Conanda, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher e o Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial. Márcia Rollemberg, secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do MinC, descreve o Carnaval como “uma das expressões mais vibrantes e transformadoras da diversidade cultural brasileira”.
Ela convoca gestores, artistas e a sociedade a fazerem do Carnaval um espaço seguro, diverso e inclusivo, reforçando a cultura como instrumento de proteção, cidadania e diversidade.
Com informações da Agência Gov





