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Obras de Tarsila do Amaral em Brasília provocam reflexões sobre temas atuais e legado da artista


Exposição “Transbordar o mundo” celebra centenário da primeira mostra individual de Tarsila em Paris e traz olhar social para a atualidade.

A obra “Operários” (1933) de Tarsila do Amaral, com seus 51 rostos de trabalhadores da indústria, ganha nova relevância em meio às discussões sobre a escala de trabalho no Congresso Nacional. A pintora, que viveu de 1876 a 1973, é tema da exposição “Transbordar o mundo: os olhares de Tarsila do Amaral”, em cartaz no Centro Cultural do Tribunal de Contas da União (TCU), em Brasília, com entrada gratuita. A mostra, que celebra o centenário da primeira exposição individual da artista em Paris, conta com 63 obras que convidam à reflexão sobre temas sociais e a visão de mundo da artista.


Paola Montenegro, sobrinha-bisneta de Tarsila e gestora de seu legado, destaca a força das obras de Tarsila que, mesmo centenárias, ainda ressoam com a sociedade contemporânea. “Operários”, segundo Montenegro, é uma obra na qual os brasileiros se reconhecem e que, ao abordar a escala 6 por 1, levanta questões sobre o direito das pessoas ao lazer, à cultura e ao tempo livre.


Um olhar social e multifacetado sobre o Brasil.

Além de “Operários”, a exposição apresenta outros trabalhos de forte cunho social, como “Segunda Classe” (1933) e “Costureiras” (1950), que abordam a desigualdade e a exploração. Organizada por núcleos temáticos e não cronologicamente, a mostra explora os múltiplos olhares de Tarsila, desde seus trabalhos figurativos iniciais até seu engajamento social após a década de 1930. A curadoria, assinada por Karina Santiago, Rachel Vallego e Renata Rocco, busca evidenciar a evolução do pensamento criativo de Tarsila, influenciado pelo modernismo e pelas transformações sociais e econômicas do Brasil, como a quebra da Bolsa de Nova York em 1929, que impactou sua família de cafeicultores.

Karina Santiago explica que as diferentes perspectivas de Tarsila permitem uma compreensão profunda do país e do mundo que ela vivenciou. A artista teria transitado de um contexto de privilégio econômico para se tornar uma figura central nas artes plásticas brasileiras. A criação de “Abaporu”, considerada sua obra mais famosa e pertencente a um museu na Argentina, exemplifica as influências modernistas em sua obra, que gradualmente incorporou elementos religiosos, ambientais e críticas sociais.

Obras que atravessam o tempo e inspiram novas gerações.

Rachel Vallego ressalta a capacidade das obras de Tarsila de dialogarem com questões do século XXI. A pintora, com seu olhar atento à realidade, provocava o espectador a refletir sobre a sociedade. A exposição também explora outros temas, como “estar no mundo”, a descoberta de cenários, e o mergulho no onírico, com trabalhos como “Auto-Retrato” (1923), “Palmeiras” (1925) e “São Paulo” (1924).

Uma sala imersiva com videografismo original, que mescla o símbolo do sapo com animações de obras como “A Cuca” (1924) e “Abaporu” (1928), promete encantar o público, especialmente as crianças, com um conteúdo lúdico e interativo. A curadoria dessa experiência é de Paola Montenegro e Juliana Miraldi, que buscam homenagear a criatividade histórica de Tarsila.

Paola Montenegro expressa o desejo de levar a exposição para todo o país, apresentando Tarsila como uma mulher “à frente do seu tempo”. Rachel Vallego acrescenta que é possível identificar em Tarsila atitudes que podem ser consideradas feministas, como a interrupção de um casamento nos anos 1910 para seguir carreira artística, com o apoio de sua família.

A exposição “Transbordar o mundo” ficará em cartaz até 10 de maio. A diretora do Centro Cultural TCU, Ana Cristina Novaes, incentiva a visitação de instituições de ensino para que mais estudantes conheçam o pensamento de Tarsila do Amaral.

Com informações da Agência Brasil