
Um bloco de carnaval no Rio de Janeiro está promovendo um movimento para integrar as trabalhadoras do sexo da Vila Mimosa e combater o estigma associado à região. A iniciativa, que já dura cinco anos, tem como objetivo celebrar a memória e a força cultural do local, historicamente marginalizado por concentrar pontos de prostituição.
Desafios na integração
Apesar das homenagens e do apoio vocalizado pelo bloco, a participação direta das trabalhadoras nos desfiles nem sempre é expressiva. Muitas preferem observar a festa das calçadas ou do interior dos bares, por receio de serem filmadas ou por não quererem chamar atenção indevida. Cleide Almeida, presidente do bloco e assistente social, explica que a integração plena depende de apoio financeiro e projetos sociais contínuos, que atualmente não estão sendo realizados.
“Algumas trabalhadoras fogem, porque ficam com medo de serem filmadas e aparecer na mídia. Outras, quando veem a gente no bloco, descem para a rua e querem desfilar. Mas só conseguimos ficar mais junto delas quando há apoio financeiro e projetos sociais acontecendo. E isso não tem ocorrido. Precisamos desse apoio”, afirma Cleide.
Felipe Vasconcellos, líder da banda “Enxota que eu vou”, aponta barreiras socioeconômicas como um dos motivos para a menor participação. “Nossa luta nesse tempo todo é para integrar essas meninas ao bloco. Mas é difícil por muitas questões. Elas trabalham até tarde, têm filhos, moram aqui. Vão dormir tarde, têm que cuidar da família”, comenta.
Carnaval como ferramenta de valorização
Laísa, 21 anos, que trabalha há cinco anos na Vila Mimosa, vê o bloco como um evento positivo que ajuda a valorizar a região e suas moradoras. “Aqui é um local de trabalho bom e o bloco é uma alegria. Muitas pessoas acabam tendo que trabalhar na hora, mas o desfile ajuda a valorizar a região e a gente. A realidade hoje em dia é de muito preconceito, mas o bloco é muito bom para alertar sobre isso”, diz.
O principal objetivo do bloco, segundo Cleide Almeida, é mudar a percepção negativa da Vila Mimosa. “Todo mundo que mora no Rio deveria vir aqui e conhecer melhor a vida da trabalhadora sexual. São mulheres como outras: mães, irmãs, filhas e avós. As pessoas precisam conhecer a história dessas mulheres, não as julgar. E o bloco traz isso. É um bloco para derrubar tabus”, defende.
Quebrando tabus e preconceitos
A história de Estrela, de 58 anos, que atua como técnica de enfermagem e busca uma renda extra na Vila Mimosa, exemplifica a complexidade da vida das trabalhadoras e a necessidade de desmistificação. “Eu sou técnica de enfermagem e venho em busca de um extra. Comecei aqui por causa de dívida alta. Caí em um golpe e perdi mais de R$ 100 mil. Consegui pagar tudo, mas continuei porque ganho muito dinheiro aqui. Não devo nada para a sociedade, tenho dois filhos criados. Estou aqui para manter o que tenho e adquirir mais”, explica.
Visitantes como a administradora Daniela Tarta vieram ao bloco com o propósito de conhecer a região e quebrar preconceitos. “É o momento de vir aqui, de tentar me aproximar dessa população que é tão menosprezada, tão desqualificada. Viemos aqui para apoiá-las”, afirma Daniela. “Aqui tem pessoas como qualquer outro lugar. É um espaço aberto, completamente democrático. Eu acredito nisso”.
História e luta por direitos
A Vila Mimosa é herdeira da antiga Zona do Mangue, um reduto de bares e casas noturnas que foram sendo deslocados por intervenções urbanas ao longo do século XX, até se consolidarem na Praça da Bandeira em meados da década de 1990. Atualmente, movimentos sociais, associações de moradores e trabalhadoras do sexo lutam por maior atenção do poder público, com a oferta de serviços, direitos e melhorias na infraestrutura urbana, reconhecendo a complexidade social e histórica da região.
Com informações da Agência Brasil





