
O samba-enredo, muitas vezes visto apenas como uma expressão artística do carnaval, carrega um profundo significado político e de resistência, especialmente no contexto da ditadura militar brasileira (1964-1985). Essa é a tese defendida pelo sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino em sua pesquisa de doutorado, intitulada “Enredos da Liberdade: o grito das Escolas de Samba pela Democracia”, apresentada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).
O trabalho acadêmico foca nos enredos das escolas de samba do Grupo Especial do Rio de Janeiro durante a década de 1980, um período que marca o fim do regime militar e se estende até a eleição de Fernando Collor à Presidência da República. A análise abrange o contexto da campanha pelas Diretas Já (1984) e demonstra como os sambas-enredo serviram como plataformas de crítica social e política.
Reduzino destaca que a criação de um samba-enredo é um processo que demanda meses de trabalho dentro da comunidade. Portanto, quando um samba criticava a tortura ou clamava por liberdade durante a ditadura, tratava-se de um ato político com um alcance e uma elaboração significativos, longe de ser apenas um desfile de curta duração.
Racismo e apagamento na história do samba
O sociólogo aponta que o apagamento da produção intelectual e da humanidade de grupos marginalizados, especialmente a população negra, é uma dimensão do racismo estrutural brasileiro. Nesse sentido, as escolas de samba, por meio dos sambas-enredo, sempre tiveram o potencial de expressar vozes e provocar reflexões.
A repressão sofrida pelas escolas de samba durante os anos de chumbo é vista por Reduzino como um reflexo da violência do Estado contra as camadas populares, a população negra e periférica, e aqueles envolvidos com a cultura do samba. Ele relembra que o samba, como expressão da cultura negra, sempre esteve sob escrutínio em uma sociedade historicamente racista, citando o Código de Vadiagem como um exemplo de instrumento de repressão.
O papel dos bicheiros e o mito da democracia racial
A pesquisa também aborda a relação entre as escolas de samba e os banqueiros do jogo do bicho, uma associação que se intensificou durante a ditadura militar. Reduzino argumenta que essa ligação não deve recair apenas sobre as escolas, pois os bicheiros frequentemente dialogavam e circulavam no espaço do poder público, inclusive com militares.
Outro ponto crucial da pesquisa é a desconstrução do mito da democracia racial brasileira. Reduzino afirma que essa ideia, forjada por parte da elite, é um pilar da estrutura racista, pois nega a realidade de desigualdades gritantes, como a alta mortalidade de jovens negros e a violência obstétrica contra mulheres negras.
Apesar de o mito da democracia racial ser cantado em sambas, Reduzino revela que arquivos do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) mostram o fichamento de intelectuais negros e ativistas que discutiam relações raciais e criticavam essa ideia, incluindo figuras como Lélia Gonzalez e Clóvis Moura. O movimento cultural de expressão negra e as escolas de samba, ao questionarem esse mito, tornaram-se alvo de vigilância.
Enredos como memória e resistência
Em relação à crítica de que muitos enredos do passado se basearam na historiografia oficial, alienando o processo histórico, Reduzino contrapõe que a memória oficial é construída e incorporada pelo Estado. Ele questiona por que essa produção acadêmica oficial não é rotulada de alienação, enquanto a produção das escolas de samba é estigmatizada.
O sociólogo ressalta que, ao analisar os enredos da década de 1970, apenas uma pequena fração deles (quatro de 140) pode ser considerada ufanista ou elogiosa ao Brasil sob a ditadura militar. Essa constatação desmistifica a ideia de que as escolas de samba eram, em sua maioria, adesistas ao regime.
A pesquisa de Rodrigo Reduzino, que também serviu de base para o documentário “Enredos da Liberdade”, disponível no Globoplay, lança luz sobre o papel fundamental das escolas de samba como espaços de memória, resistência e expressão política no Brasil.
Com informações da Agência Brasil





