
Em pleno século XIX, a curiosidade sobre atravessar continentes ganhou um aliado improvável: a bicicleta. Entre 1884 e 1886, Thomas Stevens tornou-se o primeiro homem a completar uma volta ao mundo montado sobre rodas, percorrendo cerca de 22 mil quilômetros e abrindo um capítulo novo na história das viagens.
O nascimento da jornada e o contexto da época
Stevens, nascido na Inglaterra e criado nos Estados Unidos, já era entusiasta do ciclismo quando decidiu ampliar a façanha que o levou de San Francisco a Boston, em cinco meses. Patrocinado por uma revista especializada, ele partiu para Inglaterra no início de 1884, para depois cruzar a Europa de bicicleta e seguir pela Turquia, pela Índia, pela China e pelo Japão. A máquina de Stevens era pesada e contava com uma roda dianteira muito maior que a traseira, um tipo de bicicleta popular na época chamado penny-farthing.
Com poucos itens de bagagem, ele carregava o essencial: roupas simples, um poncho que também servia de barraca, uma arma e um pneu reserva. Seguiu pela estrada movido pela curiosidade de ver culturas, paisagens e modos de vida diferentes, enquanto a imprensa acompanhava o feito com interesse internacional.
Rota global e encontros que marcaram a viagem
A jornada o levou a Istambul, onde passou o verão de 1885 durante o ramadã. Ele descreveu a cidade como um mosaico de culturas, observando a diversidade de costumes, ruas iluminadas à noite e mercados vibrantes. O trajeto incluiu visitas a marcos históricos e encontros com moradores locais que lhe mostraram hospitalidade, além de registrar observações sobre tradições locais e a vida cotidiana.
No Irã, Stevens ficou em Teerã sob a hospitalidade do xá da época e observou testemunhos de religiões antigas, como as Torres do Silêncio. A viagem o levou ainda até o Mar Cáspio, de onde seguiu por vias marítimas até chegar ao sul da região, antes de seguir de trem para Batumi, atual Geórgia. Em seguida, chegou a Calcutá, na Índia, onde elogiou a paisagem e a arquitetura do subcontinente, incluindo o Taj Mahal. Seguiu para Hong Kong, China e, por fim, Yokohama, no Japão, onde encerrou a jornada em 1886.
Legado, crítica e o peso histórico da viagem
A narrativa de Stevens ajudou a popularizar a ideia de viajar sem depender de rotas convencionais, inspirando uma geração de aventureiros. Contudo, a obra traz traços do olhar da época, com generalizações sobre os povos que encontrou, o que hoje é tema de debate sobre orientalismo nos relatos de viagens vitorianos. Mesmo assim, a contribuição do itinerário de Stevens é reconhecida como decisiva para a popularização das viagens de bicicleta.
A história acabou ganhando forma literária no livro Around the World on a Bicycle, publicado em 1887, consolidando o marco de que uma pessoa comum poderia desafiar fronteiras utilizando a tecnologia disponível à época. Especialistas destacam que o feito abriu caminho para novos exploradores e ajudou a sedimentar a imagem da bicicleta como instrumento de descoberta cultural, não apenas de lazer.





